Brasil

Entrevista

“Não há medidas padronizadas para conceitos básicos”

Martine Durand, Diretora de Estatística e Estatística-Chefe da OCDE, sobre o desafio de definir, medir e assegurar o bem-estar sustentável.

Em 2011, a OCDE desenvolveu a Iniciativa para uma Vida Melhor, que mede e compara qualidade de vida em nível nacional. Quais são os objetivos dessa iniciativa?
A Iniciativa para uma Vida Melhor tem três objetivos principais:
O primeiro é arranjar uma ampla gama de indicadores de bem-estar internacionalmente comparáveis que possam subsidiar, de diversas formas, as políticas. Isto inclui avaliar como os países se desempenham em diversas áreas que definem a vidas da pessoas e como este desempenho evolui com o tempo. Estes indicadores também podem ajudar a avaliar o impacto de políticas em aspectos específicos do bem-estar.

Segundo, buscamos desenvolver formas melhores de medir o atual e o futuro bem-estar, particularmente analisando os dados disponíveis, avaliando sua qualidade e recomendando as ações necessárias para fazer melhorias que durem.

Finalmente, queremos iniciar um diálogo sobre bem-estar com os cidadãos para medir percepções públicas e entender o que importa mais na vida das pessoas.

Além de medir o bem-estar hoje, a OCDE também identificou quatro fatores que podem definir o bem-estar no futuro. Quais são esses fatores?
Nossa estrutura olha para o bem-estar do futuro considerando recursos que persistem ao longo do tempo e que possam ser vistos com “capital” – ou seja, recursos que sejam capazes de armazenar valor e que possam gerar um fluxo de benefícios para as pessoas e para a sociedade ao longo do tempo. Identificamos quatro tipos de capital:

O capital econômico refere-se tanto ao capital produzido, ou seja, bens tangíveis produzidos pelo homem, como capital financeiro, ou seja, o dinheiro no banco ou ações de uma companhia. O capital natural refere-se a aspectos do ambiente natural. Ele pode incluir bens específicos como recursos de energia, e também a ecossistemas mais amplos, por exemplo, a conexão funcional de ou interações entre diferentes ativos ambientais. Capital humano pode ser definido de várias formas, mas tipicamente refere-se a aspectos como conhecimento, habilidades, competências e saúde das pessoas. Capital social refere-se às normas sociais, confiança e valores que promovem a cooperação dentro ou entre diferentes grupos da sociedade.

Como a senhora avaliaria o estado atual desses capitais?
Cada tipo de capital inclui diversos e diferentes ativos e recursos. Alguns deles são bem medidos, enquanto para outros ainda faltam medidas robustas internacionalmente comparáveis. Por exemplo, ter ar limpo para respirar é um aspecto importante do nosso meio ambiente natural. Embora o nível médio de poluição do ar tenha caído em muitos dos países da OCDE nos últimos dez anos, esta não é uma verdade universal. Há grandes diferenças na exposição à poluição, dependendo de onde as pessoas vivem.

Para muitas pessoas que vivem em grandes cidades em todo o mundo, a qualidade do ar é uma questão crítica para a saúde e para o bem-estar, e continuará a ser no futuro. Podemos também avaliar tendências nos níveis de educação, por exemplo, o que nos dá uma visão do desenvolvimento do capital humano. Na maioria dos países da OCDE, nos últimos 15 anos temos assistido a um firme crescimento nos níveis educacionais de pessoas em idade laboral. Mas os países estão desenvolvendo as habilidades e o conhecimento de suas populações em ritmos diferentes.

Quais são os principais desafios relacionados ao monitoramento e à medição dos tipos de capital que determinam o bem-estar ao longo do tempo?
Há muitos desafios. Um deles é conseguir definições desde o início. O capital social, por exemplo, é difícil de definir porque seu escopo é menos claro do que dos outros tipos de capital. Por isso, ele tem sido contextualizado de muitas formas diferentes. Nossa solução para isto tem sido encontrar os pontos comuns entre as várias abordagens. Por exemplo, estamos muito interessados em aspectos de confiança, tanto em relação a outras pessoas como a instituições, na forma de “capital social” que ajuda a promover o bem-estar através de cooperação melhor e mais eficiente entre diferentes pessoas na sociedade.

Relatório de Sustentabilidade 2014

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Índice OCDE para Vida Melhor

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OECD Better Life Index

Um outro desafio típico é encontrar indicadores precisos, mesmo quando o conceito está bem definido. Por exemplo, o capital econômico é o melhor definido de todos os capitais porque ele se baseia em uma bem estabelecida tradição de pensamento econômico, que também é refletida em estruturas de medição bem estabelecidas como o Sistema de Contas Nacionais. Entretanto, mesmo para o capital econômico, faltam formas de medir, em termos relativos, conceitos básicos tais como a riqueza familiar que vai além de somente a riqueza financeira – que não inclui a propriedade de casas ou áreas, por exemplo.

A senhora já mostrou o desafio de definir recursos como capital social. Com relação a isso, como se poderia avaliar e medir mudanças nos ativos?
A maioria dos indicadores de capital social é baseada em pesquisas sobre a confiança em outras pessoas ou em instituições, em normas sociais, em atitudes das pessoas em relação a diferentes grupos ou crenças sobre a boa vontade dos outros. Avaliar mudanças nestes ativos a longo prazo concentra-se em olhar como o auto-relato da confiança e outras normas variam de um período para outro. Isto ajuda, por exemplo, a entender se eventos como a Grande Recessão levaram a uma diminuição significativa do capital social. Entretanto, é mais difícil de entender que tipo de investimento seria necessário para restaurar a confiança aos níveis anteriores à crise. Acabamos de lançar um projeto sobre confiança na OCDE para tentar encaminhar esta questão.

Que papel têm companhias como a Robert Bosch GmbH no aumento do capital econômico, ambiental, humano e social?
As companhias podem desempenhar um papel vital ao assegurar a sustentabilidade do bem-estar ao longo do tempo. Elas fazem isto por meio de gestão ambiental cuidadosa, por exemplo, e também pela da redução de emissões e da adoção de processos sustentáveis de produção.

Tudo isto é essencial para preservar os estoques de capital natural ao longo do tempo. Criando riqueza e investindo em novas tecnologias e em inovação, as companhias ajudam a desenvolver o capital econômico com o qual contarão as futuras gerações. Como grandes empregadoras, as companhias também desempenham um papel no desenvolvimento do capital humano e social, tanto formalmente, através da educação e treinamento, como também promovendo a saúde e o bem-estar de seu pessoal, além de promover o fortalecimento das comunidades locais.