Brasil

A jornada das heroínas

O dia da engenheira Elza Cardoso, de 45 anos, começa antes das 6h, quando acorda, prepara o café da manhã dos dois filhos pequenos e arruma-os para ir à escola. Ela se dirige depois ao trabalho, mas deixa o celular perto: sua mãe, de 78 anos, tem Alzheimer, e a cuidadora costuma ligar para Elza com frequência.

Após o trabalho, seu compromisso é com os filhos de quatro e seis anos. “Logo que entro em casa, eu me desconecto e foco neles. É a hora de brincar, conversar, tomar banho e jantar.”

Elza encara uma realidade cada vez mais comum entre as brasileiras: a tripla jornada, em que a mulher não tem de lidar apenas com filhos e trabalho, mas também com pais dependentes. E não são raros os casos em que as tarefas se multiplicam ainda mais como no caso de Elza, que, depois de pôr as crianças na cama, entrega-se às tarefas de uma pós-graduação que cursa aos sábados.

Trata-se de uma tendência alimentada por ao menos três fatores. Um deles, a gravidez tardia: nas últimas três décadas, o número de crianças nascidas de mães com mais de 40 anos saltou 61%, segundo o Ministério da Saúde, pois, muitas optam por priorizar a carreira antes da maternidade. Com o passar do tempo, a tarefa fica mais difícil, porque os pais, mais velhos, começam a demandar cuidados. Aí entra o segundo fator: as pessoas estão vivendo mais tempo, e a proporção de idosos impacta mais sobre a população produtiva. E quem mais cuida dessa ponta da faixa etária quase sempre são as filhas, e não os filhos.

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A pesquisadora Ana Laura Lobato, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), aponta a influência de uma série de nuances culturais que reforçam o papel feminino de cuidadora. “Historicamente, foi naturalizada para a mulher a função de cuidar da casa, dos filhos e de outros dependentes, tais como idosos, adoentados e deficientes”.

“A sobrecarga no lar traz a desvalorização feminina no mercado de trabalho. A remuneração é em média 30% mais baixa que a dos homens, mesmo quando a mulher tem qualificações iguais e ocupa postos de trabalho iguais”, pontua Ana Laura.“As brasileiras têm tido cada vez maior escolaridade do que os brasileiros, mas isso não se traduz em melhor qualidade de empregos e maior remuneração”. Alie-se a esse quadro o fato de que há uma baixa oferta de creches e de apoio social por parte das empresas, e o que se vê é um cenário frustrante.

No mercado de trabalho, uma alternativa é o horário flexível, ainda raro no Brasil, mas muito usado nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. A possibilidade de atuar de casa durante alguns dias da semana e formatar o próprio horário .

Na Bosch, por exemplo, os funcionários têm quatro tipos de flexibilidade à disposição. Uma das modalidades é a jornada parcial: o colaborador trabalha quatro horas por dia, podendo dedicar mais tempo aos filhos.

Este ano, a empresa inaugurou na unidade de Curitiba seu primeiro centro de educação infantil na América Latina. Agora, cerca de 100 filhos de funcionários da unidade recebem acompanhamento profissional de educadores de até 5 anos, uma iniciativa que permite que os pais conciliam profissão e família de modo mais eficiente e com mais proximidade.

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