Brasil

8

Vida Conectada

Olhos por todos os lados

Por Frederico Kling, pela PrimaPagina

Em 1791, o filósofo britânico Jeremy Bentham idealizou o panóptico, estrutura prisional na qual celas ficariam nas bordas de um círculo com uma torre no meio, onde haveria apenas um vigilante. Como os presos não saberiam se estavam sendo observados, a mera possibilidade seria suficiente para manter a ordem. Mais de 230 anos depois, a adoção em massa de tecnologias de monitoramento, como aliada no combate à criminalidade, extrapolou a estratégia para o ambiente urbano. Apenas as capitais Rio de Janeiro e São Paulo têm, cada uma, cerca de 1 milhão de câmeras de monitoramento, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança. E a tendência é que esse formato de vigilância seja ampliado.

A presidente da entidade, Selma Migliori, afirma que o setor cresce, em média, 9% ao ano, desde 2010, mesmo em tempos de crise. “Isso se deve, em parte, à cultura de órgãos públicos de que tecnologia é importante na segurança”. Pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (Crisp-UFMG), o sociólogo Davy Caminhas fez seu mestrado sobre o Projeto Olho Vivo – sistema de videomonitoramento implantado pelo governo mineiro em parceria com prefeituras. Ele pesquisou o impacto do programa sobre roubos a pedestres em três bairros de Belo Horizonte. “Foram instaladas 72 câmeras, funcionando 24 horas por dia, e vimos que houve redução da prática criminal na região”, diz Caminhas. “Não encontramos evidência de que a criminalidade tenha se deslocado para os locais vizinhos”. Santos, no Litoral Sul de São Paulo, foi outra a investir intensamente nesse modelo. A cidade tinha apenas seis câmeras em 2005, conta hoje com 523 e deve terminar 2016 com aproximadamente 700, instaladas em pontos turísticos, na orla e outros locais do município.

Gráfico Santos
Veja Santos ao vivo

Veja Santos ao vivo

Teaser link icon
Funcionamento câmeras Bosch

Saiba mais

Teaser link icon

Vida Conectada


“Com mais câmeras, cresceu o número de ocorrências filmadas, tanto na segurança quanto no trânsito”, atesta Roberto Cruz, responsável pela área de projetos de tecnologia da Secretaria Municipal de Gestão. Houve mais casos solucionados. A ampliação do Sistema Integrado de Monitoramento da prefeitura santista alavancou as ocorrências em que câmeras auxiliaram no atendimento. Nos primeiros seis meses do ano passado, foram 1.879 notificações, 55% a mais que no mesmo período de 2014. A tendência permanece em 2016. De janeiro a março, as câmeras participaram do atendimento de 1.021 ocorrências – alta de 20% ante o primeiro trimestre de 2015. Isso impactou as estatísticas de criminalidade. Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública mostram recuo na quantidade de delitos registrados em 2015, em comparação com 2014.

Entre eles estão: roubos de veículos (-37,8%), roubos (-13,6%), furtos de veículos (-11.4) e furtos (-7,8%). Sistema inteligente - Segundo o consultor e ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva, após 20 minutos de trabalho, a capacidade de concentração dos operadores de câmeras piora sensivelmente. Por sorte, não precisam mesmo ficar de olho em todas as imagens. A tecnologia faz isso por eles. Com um sistema conhecido como Intelligent Video Analysis (IVA, ou análise inteligente de vídeo), os equipamentos identificam e destacam imagens de comportamentos considerados suspeitos.

“As câmeras inteligentes são programadas para pensar e para apoiar os operadores”, diz o gerente da linha de produtos de videovigilância da divisão Sistemas de Segurança da Bosch América Latina, Eros Brito. O software permite inserir até oito tipos de condutas que, quando detectadas, fazem com que os operadores recebam um alerta para verificar se há problema real. “Pode-se configurar o equipamento para avisar se algum suspeito estiver entrando em uma área isolada ou se, no meio de uma multidão, há alguém caído no chão ou andando no fluxo contrário”, explica Brito.

Vida Conectada


Santos utiliza a tecnologia de IVA da Bosch. “Entre as programações, temos uma que alerta para o cruzamento ou a ultrapassagem de uma linha virtual. Outra alerta se há invasão de uma determinada área ou se há ocupação de um espaço por um período específico”, afirma Roberto Cruz. Além de atuar na prevenção, o sistema gera informações para elucidar casos. “Ele armazena imagens, que são compactadas, reduzindo seu tamanho, mas não a qualidade”, ressalta Eros Brito, acrescentando que o programa ainda tem um sistema inteligente de busca: “Caso se saiba o intervalo de tempo em que um crime aconteceu, é possível limitar a procura.

Dá para colocar, depois, outros parâmetros, como mostrar apenas imagens nas quais aparecem duas pessoas”. A estratégia de monitoramento já conta com dois reforços. Um, já concretizado, é a instalação do OCR, um software especial, embarcado nas câmeras, que lê placas de carros e pode, por exemplo, detectar quais foram furtados ou roubados. O outro é a construção de um novo Centro de Controle Operacional, que vai integrar segurança, trânsito e outros serviços – como Defesa Civil, serviços de ambulâncias e fiscalização urbana. Fator humano - Mesmo com toda sofisticação tecnológica, o fator humano é imprescindível. Não basta espalhar câmeras por todos os lados, conforme destaca o cientista político e especialista em segurança pública Guaracy Mingardi.

Já o sociólogo Claudio Beato, coordenador do Crisp-UFMG, enfatiza que é crucial dispor de capacidade para atender às ocorrências, “ainda mais em um momento em que há cada vez mais dados para a segurança pública”. No mesmo sentido, Vicente da Silva apresenta um dado alarmante para mostrar a importância da investigação na redução da criminalidade: só 8% dos homicídios são resolvidos. Isso é especialmente grave, segundo ele, porque o fundamental para melhorar a segurança é o criminoso considerar grande a possibilidade de ser pego. “É preciso um esforço policial grande”.

8